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MEDIUNIDADE NOS ANIMAIS

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De que a perfectibilidade (por si mesma) 
é marca patente e atributo espiritual da 
espécie humana

Mediunidade nos animais


Introdução

Hoje, que os postulados da Doutrina Espírita estão devidamente apresentados e organizados pelo trabalho de Allan Kardec, é com facilidade que compreendemos que no mundo espiritual só há os Espíritos (princípio inteligente individualizado). Allan Kardec nos apresenta o conceito de erraticidade como o estado transitório dos Espíritos na vida espiritual. Um Espírito errante é, pois, aquele que depende das encarnações, das vidas sucessivas, e que as aguarda, para evoluir, para se depurar, que transita por várias regiões espirituais e materiais até que conquiste o estado de Espírito puro.
Ao se separar definitivamente do corpo físico, os Espíritos nessas condições, vão para a erraticidade. Mas isso não acontece com os espíritos dos animais, pois o princípio inteligente que os anima, está em processo de individualização, e são imediatamente aproveitados em novas formas físicas. Não há, portanto, erraticidade para os espíritos dos animais, ou de qualquer outro reino da Natureza a baixo do reino humano. Assim Allan Kardec estabelece desde o princípio da codificação, através da concordância dos ensinos dos Espíritos superiores orientados pelo Espírito da Verdade.
Basta esse princípio para se chegar a evidente conclusão de que é impossível que o espírito de um animal querido, um cãozinho, um gato, um passarinho, o que seja, possa se manifestar a um médium ou ao seu ex-dono, pois o princípio inteligente dos animais são imediatamente aproveitados em novas formas físicas, seja nesse mundo ou em outros; eles não ficam perambulando por aí e com saudades de sua antiga vida.
Entretanto, nos escritos do Espírito André Luiz, por exemplo, os animais, por assim dizer, abundam no mundo espiritual. Se ele fizesse a descrição de outros mundos materiais, porém mais evoluídos, de fato, não haveria problemas, pois o próprio Kardec nos relata, na Revista Espírita, a constituição superior dos animais em outros mundos – isso está de acordo com os princípios básicos da Doutrina Espírita. Mas o Espírito André Luiz se apresenta efetivamente no contexto da vida espiritual, como um desencarnado, de modo que as suas descrições da vida espiritual estão em flagrante desacordo com os princípios estabelecidos desde O Livro dos Espíritos. Em suas narrativas há carroças puxadas por cavalos garbosos, cães fiéis que acompanham as equipes socorristas no umbral, aves que se alimentam das emanações inferiores de mentes desequilibradas, pássaros e seus cantos lúgubres ou maviosos… Enfim, são narrativas que adentram largamente no campo espiritualista e de doutrinas particulares, como define Kardec, não sendo uma literatura espírita.
O estudo que nos enseja o capítulo XXII, do Livro dos Médiuns, nos trás a brilhante dissertação do Espírito Erasto, que desenvolve o tema com lógica e cientificidade, ao mesmo tempo em que nos compele a refletir na infeliz inconsistência doutrinária do movimento espírita brasileiro.
  • 1. A relação Espírito/Corpo e o intermediário perispirítico como condição de possibilidade da mediunidade
Neste capítulo XXII, do Livro dos Médiuns, Allan Kardec nos oferece a conceituação definitiva da mediunidade como faculdade puramente humana, tão somente humana. Os fundamentos dessa tese se encontram na “diferença das naturezas” do animal e do homem e, por conseguinte, de que “os semelhantes agem através dos semelhantes e como os seus semelhantes.”
Desse modo, a todo um desenvolvimento de uma problemática ontológica inerente à reflexão da possibilidade da mediunidade em outros seres que não sejam os humanos, proposta na dissertação do Espírito Erasto. Mesmo o princípio inteligente sendo a fonte única dos seres que animam a matéria, é preciso considerar a mudança qualitativa que esse princípio inteligente sofre no seu desenvolvimento sucessivo, conquistando determinações ontológicas, no plano existencial humano, que o diferencia quase completamente dos animais e, mais ainda, do estado primitivo do princípio inteligente não individualizado. O ser do homem – que tem como determinação fundamental a unidade da consciência – , se unindo necessariamente à matéria, possui um envoltório material absolutamente apropriado a sua condição existencial: o perispírito, envoltório fluídico, órgão sensitivo do Espírito, e o corpo físico, envoltório mais grosseiro e corruptível.
É, portanto, dessa característica ontológica do homem que a mediunidade está dependente: a unidade da consciência, em virtude das leis que regem a sua manifestação, determina um envoltório fluídico muito mais sofisticado, com o qual se expressa na erraticidade e se vincula temporariamente a um corpo físico. A estrutura do perispírito humano comporta a possibilidade de superar em grande parte a pesada resistência da matéria, quando o Espírito se encontra encarnado, e com isso facilita o intercâmbio mediúnico e a produção das manifestações espirituais. O perispírito humano reclama o Espírito Erasto, deve ser considerado na sua natureza própria e na sua especificidade, para então se compreender a condição de possibilidade da mediunidade.
A “diferença das naturezas” deixa possível ou não aos seres encarnados se tornarem médiuns, pois há o obstáculo do corpo físico a ser transpostos, e, antes disso, a causa fundamental: somente a unidade da consciência pode determinar um perispírito com propriedades tais que ofereçam as condições fluídicas necessárias para a produção dos fenômenos mediúnicos. Nos animais a consciência é fragmentária e em outros totalmente nulos, não no sentido próprio da ausência, pois o princípio inteligente, como um elemento fundamental e constituinte do Universo, está no todo, sofrendo o processo de individualização; as manifestações inteligentes que se verificam em suas muitas ocupações são determinadas pelo princípio inteligente que os anima, mas não ultrapassam os limites das imposições biológicas das espécies a que pertencem; o princípio inteligente não é individualizado, não há a unidade da consciência a se afirmar e determinar toda outra esfera de ações, gostos e interesses que não sejam frutos dos imperativos dos instintos de conservação, nutrição e reprodução.
Na relação Espírito/Corpo, o perispírito tem um papel fundamental, seja no processo de ontogênese do ser encarnado, ou seja, no exercício da mediunidade. O Espírito Erasto oferece um quadro geral da dinâmica própria do perispírito humano no exercício da mediunidade e, portanto, de certas sutilezas específicas da relação Espírito/Corpo:
“(…) o vosso perispírito e o nosso são tirados do mesmo meio, são de natureza idêntica, são semelhantes, numa palavra. Possui ambos uma capacidade de assimilação mais ou menos desenvolvidos, de imantações mais ou menos vigorosa, que permite a nós Espíritos e encarnados, pôr-nos muito pronta e facilmente em relação. Enfim, o que pertence especificamente aos médiuns à essência mesma de sua individualidade, é uma afinidade especial, e ao mesmo tempo uma força de expansão particular, que anulam neles toda possibilidade de rejeição, estabelecendo entre eles e nós uma espécie de corrente ou de fusão, que facilita as nossas comunicações. É, de resto, essa possibilidade de rejeição, própria da matéria, que se opõe ao desenvolvimento da mediunidade na maioria dos que não são médiuns.”
Há, portanto, particularidades no envoltório fluídico do homem que determinam as condições de possibilidade da mediunidade. O Espírito Erasto assinala essas particularidades como:
  • “Capacidade de assimilação” – podemos deduzir como uma flexibilidade na relação com os vários tipos de fluídos, não os rejeitando ou repelindo tão prontamente; como uma capacidade mais ou menos desenvolvida de assimilar as irradiações fluídicas dos Espíritos.
  • Capacidade de “imantação” – ou seja, uma atração “mais ou menos vigorosa” que permite a durabilidade suficiente nas relações fluídicas para a produção dos fenômenos mediúnicos, sem a qual não ocorreria a fusão fluídica necessária.
E referente aos médiuns propriamente ditos, seus perispíritos apresentam:
  • “Afinidade especial” – uma intensificação na flexibilidade de se relacionar com os vários tipos de fluídos oriundos das irradiações dos Espíritos.
  • “Força de expansão particular” – uma propriedade do perispírito de ultrapassar os limites e a resistência do corpo físico, para que haja a combinação entre os fluídos do médium e do Espírito manifestante.
Todas essas particularidades presentes no envoltório fluídico dos homens oferecem as condições de anular a “possibilidade de rejeição, própria da matéria”, isto é, a matéria mais compacta e densa dificulta a combinação dos fluídos para que se estabeleça a corrente ou fusão fluídica necessária entre o Espírito manifestante e o médium (Espírito encarnado). A fusão fluídica (ou combinação, identificação) é o momento principal para a produção de qualquer fenômeno mediúnico, seja físico ou inteligente; os fluídos são a matéria-prima das manifestações dos Espíritos, eles sofrem as impressões do pensamento e da vontade e são os seus condutores, como o ar propaga o som. Desse modo, para que o instrumento mediúnico sofra a influência, direta ou indireta, de uma inteligência estranha e independente do corpo físico, é necessário que antes ocorra a fusão fluídica, que pode ser dificultada parcial ou completamente pela rejeição da matéria, e é este fato, explica Erasto, da “possibilidade de rejeição, própria da matéria, que se opõe ao desenvolvimento da mediunidade na maioria dos que não são médiuns.”
Assim, por não haver a unidade da consciência que determina um envoltório fluídico com tais particularidades, por se estabelecer, portanto, uma incompatibilidade ontológica, é que os animais não podem, de modo algum, se tornarem instrumentos mediúnicos dos Espíritos. E verificamos que a tese do Espírito Erasto está devidamente fundamentada na natureza trinitária do Homem (Espírito, perispírito e corpo físico).
  • 2. O existir humano e a sua condição essencial de perfectibilidade
Para demonstrar a impossibilidade da mediunidade nos animais, o Espírito Erasto se fundamenta na diferença das naturezas do animal e do homem. Mas essa diferença não se baseia na realidade material, orgânica dos seres viventes que, na verdade, segundo a hipótese mais consistente de Allan Kardec em o livro A gênese – ao abordar a gênese orgânica e o desenvolvimento dos seres materiais – , considera que há uma cadeia ininterrupta de desenvolvimento da vida orgânica desde as formas mais elementares e simples até as mais sofisticadas e complicadas.
O invólucro material é um constante processo de transformação e sofisticação, mas a causa dessa dinâmica evolutiva está no agente espiritual que dirige a forma física, que traz em si mesmo o impulso de transcendência.
Desse modo, a diferença das naturezas entre o animal e o homem, que fundamenta a tese do Espírito Erasto, está precisamente no sopro que os anima, porquanto no homem, essa força espiritual tende necessariamente para a perfeição. Entretanto, podem-se indagar os animais, de certo modo, também não se melhoram, não conquistam certas sofisticações em suas manifestações, mesmo que muito lentamente? Não é perfeitamente verificável a carreira evolutiva das espécies? Assim, não só o homem evolui, mas toda a realidade vivente com ele.
De fato, isso não é contestado pela Doutrina Espírita, pois ela nunca se opõe as leis divinas. O que esclarece o Espírito Erasto, é que o homem é o “único perfectível em si mesmo e nas suas obras”, que o seu ser é determinado por uma “condição essencial de perfectibilidade.” Tudo na criação é perfectível, isto é, se expande, progride se renova numa síntese superior, se desenvolve, no entanto, é apenas no homem que esse movimento universal de ascensão é determinado por uma consciência que luta e se afirma no mundo, que, ao império do instinto, do impulso inconsciente, das ações mecânicas e condicionadas, contrapõem pouco a pouco a sua vontade, a sua deliberação segundo fins possíveis no futuro, a sua capacidade de exame e ponderação. Portanto, é somente através do homem que a liberdade se manifesta e com ela a capacidade de determinar o seu comportamento para além dos estreitos limites da conservação e reprodução da espécie. O advento da consciência no seio da natureza traz, para a cadência da evolução, um compasso mais definido e mais acelerado, pois a consciência tem como condição essencial o impulso de transcendência, que caracteriza seu afã de superação dos obstáculos ou limitações existenciais e a superação da sua própria condição de desenvolvimento insuficiente para o fim a que se destina: à integração com Deus, realizando assim, também, os desígnios mais elevados da lei de adoração, inerente à moralidade da consciência.
Na análise ontológica da realidade humana, o humanismo espírita demonstra toda sua pujança. Na dissertação do Espírito Erasto, o homem é visto como “rei da criação”, ou seja, em virtude da sua “condição essencial de perfectibilidade”, há a possibilidade intrínseca, e sempre em atualização, de não se sujeitar completamente ao domínio do instinto e do fluxo inexorável da Natureza, de fazer com que a força espiritual sempre crescente, ou em possibilidade de desenvolvimento contínuo, governe a potência material segundo os fins superiores da consciência, partindo dai, então, uma nova ordem de determinação do ser, pois realizando gradativamente a sua liberdade, ele determina a si mesmo, e lentamente sai da heteronomia e se inicia, ao mesmo tempo, na conquista da autonomia, que garante, por sua vez, a realização de toda a perfectibilidade possível.
Ao mesmo tempo em que o homem alcança sua realeza espiritual, ao invés de subjugar toda a criação, na verdade ele se torna o seu meio de redenção, pois, a) sendo ele também parte da Natureza, ela alcança nele a sua mais alta expressão, como conclui magistralmente Herculano Pires em um dos seus pensamentos: “… o homem é o momento do Universo mais próximo de Deus”; b) dignificando a sua própria consciência na realização de sua perfectibilidade, torna-se instrumento da sabedoria divina no seio da criação, dispondo, assim, dos elementos precisos para impulsionar as demais criaturas em seus processos emancipatórios.
Eis, pois, as razões da impossibilidade da mediunidade nos animais e a singularidade própria do existir humano no seio da criação. Modificar constantemente a sua própria condição existencial, e com isso todo o seu modo de ser (ethos), numa efetiva atividade criativa, a partir de si mesmo e por si mesmo, por uma livre deliberação, por um alargar de sua perspectiva temporal, visando fins somente possíveis num futuro conjectural, determinando a sua atividade a partir da concepção de ideias sempre mais amplas e audaciosas, tudo isso é somente possível no reino humano, onde a consciência se afirma no fluir da evolução.


Fonte: Do blog: O Espirito e o Tempo
Referência: Mediunidade nos animais. O Livro dos Médiuns, Allan Kardec. Tradução José Herculano Pires.

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